quarta-feira, 2 de junho de 2010

Navalha na carne

Ao lado de “Dois perdidos numa noite suja”, é o texto mais conhecido do dramaturgo paulista Plínio Marcos (1935-1999). Estreou em São Paulo e no Rio de Janeiro no ano de 1967 sendo imediatamente proibido pela censura e só reencenado nos anos oitenta. Cacilda Becker e Tônia Carrero foram as primeiras atrizes a fazer o papel da prostituta Neusa Suely explorada pelo cafetão Vado e roubada por Veludo, faxineiro do bordel. A tríade está completa. Já não é uma dupla, mas já é uma sociedade, um ecossistema.

Dentre as leituras que se pode fazer de Plínio Marcos, e cada um pode fazer a que mais lhe aprouver, o naturalismo é a que mais plenamente pode potencializar as indicações da dramaturgia. Não há personagens bons, nem maus no texto de Plínio Marcos nessa perspectiva. O seu aspecto humano se desenvolve dentro da questão animal em que o instinto, a forte influência do meio e a capacidade de se modificar são bastantes presentes. Os personagens sobrevivem.

Vado sobrevive na sua selvagem luta contra Neusa Suely. Por sua vez, a prostituta depende da importância que ela tem para Vado, essa expressa por seus xingamentos, que não deixam de ser uma forma de expressão. Veludo rouba para manter seu vício às drogas, trabalha para sobreviver, desafia Vado e sua masculinidade para se sobrepor. Não há moral. E a ética é entendida como no seu mais puro conceito: a capacidade do indivíduo de ser fiel às suas próprias crenças.

Essa é a situação em que o diretor Pedro Granato coloca seus três atores no universo triádico de Plínio Marcos: Gero Camilo, Gustavo Machado e Paula Cohen, todos com currículos recheados de produções importantes no cenário nacional, além de prêmios reconhecidos. Uma arena em que as figuras se encontram, duelam, se alteram. O público os sufoca, os prende, os mata para não deixar que saiam do teatro. Talvez nelas, nós nos transformemos na assistência de uma produção assim. O corte dessa navalha é transversal. E é um privilégio ser cortado por mãos tão experientes que sabem o que fazer com o que sai de dentro do corte.


“Nada que vem de fora ajuda um ator a criar seu personagem. Esse tem que nascer de dentro do ator. Nutrido de coisas que estão dentro dele.” (Plínio Marcos – Reflexões sobre a Arte Cênica)


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Ficha Técnica:

Texto – Plínio Marcos
Direção – Pedro Granato

Elenco:
Gero Camilo
Gustavo Machado
Paula Cohen

Iluminação: Alessandra Domingues
Espaço Cênico: Alessandra Domingues e Pedro Granato
Figurino:Tatiana Thomé
Direção de Produção:Helena Weyne
Produção: Macaúba Produções Artísticas
Arte Gráfica: Sato
Fotos: Marie Hippenmeyer
Duração do Espetáculo - 80 minutos
Faixa etária – 16 anos

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